Textos
 

Ivan o Apóstolo

Existe um pequeno teatro em Barão Geraldo, sub-distrito de Campinas, chamado Companhia Sarau. Estive lá para assistir o trabalho mais recente do violeiro Ivan Vilela. Era uma apresentação apenas para os amigos. E ele tem tantos que faltou assento... Tinha, é claro, a viola do Ivan, o violão do Matsuda, a rabeca do Fia e o barro ceramizado do Magrão. Tudo acústico. No dia seguinte, iriam entrar em estúdio. E o grande desafio era deixar registrado a sonoridade do palco. Apenas isso. Uma coisa tão fácil como pegar saci num rodamoinho. E pegaram! Ouço agora o resultado destas almas caipiras. E a vontade é sair correndo pela vida e levar a boa nova para todos, bater de porta em porta e anunciar o nascimento da mais nova oração brasileira. E ajoelhado ainda está o meu coração. E no ar um aroma de manga rosa, o sabor da mulher amada. Estou há dias em processo de eterna paixão, abençoado pela viola do amigo brasileiro. Mais do que música, o som que se ouve é uma prece às nossas mais longínquas tradições, não um apelo, mas um agradecimento por nossas almas caipiras...

Quando fui ouvir pela primeira vez as orações violeiras de Vilela, vi a sua filha adormecida e protegida. Nunca mais serei capaz de ouvir uma viola sem imaginar uma criança adormecida. E que ela cresça, ame e seja feliz... Estou há dias buscando as palavras necessárias para explicar o que existe de mais simples na vida: a paixão pela terra, a querência pela companheira e o amor perpetuado no filho. E assim me faço arauto desta boa nova. E assim me converto; ainda há a possibilidade de que o homem caminha em direção ao Infinito. Tenha o Nome que tiver, Ele será sempre rezado, e lembrado, pelos dedos dos violeiros. E o Ivan é o seu mais novo apóstolo. É essa a boa nova. Apenas isso.

Zeza Amaral